quinta-feira, 18 de março de 2010


O D. da minha sala tem cinco anos, tal como todos os outros meninos da sala vermelha. E, tal como todos os meninos da sala vermelha, o D. podia ser só mais uma criança de 5 anos ainda sem grande história de vida para contar. Mas não é assim. A vida do D. está cheia de histórias para contar. E não são histórias de principes e princesas. São histórias que aqueles grandes olhos castanhos contam a chorar.
O D., tal como os 4 irmãos, foi abandonado. Lá em cima, no Norte. Não sei com que idade, mas sei que viveu até aos 4 anos numa casa de acolhimento, altura em que foi adoptado por um casal daqui, do coração do Alentejo. Podíamos terminar aqui a história. Um final feliz, como poucos existem. Um menino abandonado que é adoptado por uma familia que o deseja muito. Mas no caso do pequano D., a história não termina aqui.
Faz agora um ano que a familia conseguiu a adopção do D.. Este não foi um processo moroso, porque o casal se propôs a adoptar também o M., um dos irmãos do D., e como não se gosta de separar irmãos foi um "toma lá as prendas e vai-te embora". Esta familia foi vista uma vez, repito UMA vez pela assistente social. Não era suposto existirem visitas regulares?, ainda para mais quando falamos da adopção não de uma, mas de duas crianças. Não é suposto ver se as crianças se adaptaram à casa, à familia, ao meio envolvente... E, principalmente se a familia se adaptou a elas? É que no caso do D., não me parece que isto tenha acontecido. Devo confessar que o D. é uma criança dificil. Que gosta de nos experimentar, gosta de esticar a corda. Mas não nos podemos esquecer do passado dele. Facto que, na minha opinião a familia se esquece. Poucos são os dias em que esta criança não conta (caso lhe perguntemos) que levou palmadas da mãe no dia anterior. "Só com a mão?", perguntamos. O D. abana a cabeça "colher de pau". "Porque?", "Porque não levantei a mesa". Mas que merda é esta? Então uma criança de 5 anos apanha forte e feio porque não levanta a mesa? Ora já agora toma mais um safanão porque tavas a brincar em vez de limpar a casa-de-banho... (é so o que falta, não?) Será que esta criança não sofreu já o bastante? Parte-me o coração esta pequena vida já com tanto para contar.
Às vezes tenho vontade de denunciar a situação, de fazer qualquer coisa. Mas e depois? Volta para a casa de acolhimento e são mais x de anos à espera de um lar?

Quando olho para o D., lembro de quão pequenina sou.
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2 comentários:

  1. Olá

    Antes de mais, sou pai biológico e adoptivo.

    Pelo que conta, as crianças foram adoptadas há mais de um ano, imagino que nesta altura o processo de adopção terá terminado, logo a probabilidade de as crianças serem devolvidas será nula e o caso deverá ser tratado como o de qualquer filho.

    Depois de decretada a adopção plena, não há diferença nenhuma entre filhos adoptados e biológicos, só há filhos.

    Já passei por dois processos de adopção, e sei por experiência que as crianças adoptadas passam todas por um período em que tentam testar os limites dos adultos que estão à sua volta, e isto é válido para pais, professores, educadores etc, de aí a serem catalogadas como crianças difíceis vai um pequeno passo. Há que ter paciência, eles só estão a reconhecer o mundo em que vivem e muitas vezes levam-nos ao limite só para se sentirem seguros de que a situação é definitiva.

    Sobre a forma como a criança é tratada em casa, se realmente acha que há uma situação de maus tratos, deve denunciar a situação, mas eu aconselharia a tentar verificar se realmente estas coisas acontecem ou se a criança conta estas coisas só para chamar a atenção, não podemos esquecer que estas crianças forma abandonadas e que precisam de muita atenção, e que há muitas formas de o fazerem, uma delas é inventando historias.

    Jorge Soares

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  2. O que custa, é serem tão pequenos, tão frageis e inocentes, e já terem uma bagagem de história de vida bem grande, quando podiam muito bem andar aos saltos e a brincar como as outras crianças.. é triste de se ver, e é dificil estar na tua posição, saber de tudo e sentir uma impotência tal de não conseguir fazer nada :S

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