segunda-feira, 19 de abril de 2010

E.M


O meu pai sofre de Esclerose Múltipla, uma doença neurológica crónica (ainda) de causa desconhecida. Descobrimos há 4 anos, em Janeiro (se a memória não me falha).
Já há algum tempo que o meu pai, praticante de atletismo e bombeiro de profissão, se queixava de que a perna, durante os treinos, se arrastava. Foi ao médico. Alguns exames depois confirmou-se. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que recebemos a noticia. Foi um choque. Imaginem-se com 43 anos, um amor enorme à profissão e ao desporto. De repente dizem-vos que acabou. Acabaram-se as saídas de emergência nos bombeiros. Acabaram-se as provas de atletismo. Acabou. O meu pai chorou. Nós chorámos com ele. Mas reagimos. Hoje convivemos com a doença do pai da melhor maneira. E ele também.
De dia para dia o estado agrava-se. Já não é só a perna. Todo o lado esquerdo está afectado. As mãos perdem a força ao segurar um garfo. Mas o sentido de humor, esse sentido imprescindível
para encarar a vida, esse continua lá. E é graças a ele que convivemos todos os dias com o agravar da situação. O meu "escleroso", como chamamos ao meu pai lá em casa, já precisa de uma bengala para andar na rua, pois a perna já não aguente muitas caminhadas.
É difícil, para ele e para nós, toda esta situação. Além da condição física, também a psicológica foi afectada. Vejo o meu pai às vezes a viver situações do/e dia(s) anterior(es). E dizer-lhe que não foi naquele momento? Que a parede que viu era branca e não preta? Desistam. Não vale a pena ateimar. Só se vai enervar e piorar naquele momento a condição física.
Acho que damos pouco valor ao que temos. Reclamamos por tudo e por nada. Só porque sim. Quando oiço as pessoas reclamarem da vida por ninharias dá-me vontade de rir. Apesar da condição física, nunca vi o meu pai desistir de nada, ou dizer que não é capaz. Gostava de ter metade da força que ele tem. De acreditar mais.

Hoje apeteceu-me escrever sobre o meu pai. Tenho lágrimas nos olhos enquanto o faço. Dói. Dói-me todos os dias.

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